PORQUE MEDICINA INTEGRADA
A medicina mudou? Ou os tempos mudaram?
Todos nós lembramos, já que não faz tanto tempo assim, do médico de família.Em geral, nos acompanhava do parto ao desenvolvimento, conhecia a todos, era respeitado, bem quisto, tinha tempo para nos conhecer e ouvir os nossos conflitos, angústias.
Sem dúvida, negar o desenvolvimento tecnológico que tivemos seria o absurdo.Nossas populações se multiplicaram, inchando os grandes centros urbanos, exigindo programas de saúde pública complexa em demandas crescentes.Hospitais e centros de atendimento foram criados e, mesmo assim, estamos sempre próximos do precário.Ambulâncias percorrem BRS em busca de uma assistência que ficou impessoal e cada vez mais sofisticada.Nossos filhos, em geral, já não tem mais o seu pediatra que foi substituído pelo médico de plantão, mudando a cada turno, sempre correndo de um emprego para o outro, sem vínculo.O exame físico criterioso foi substituído pela lista longa de exames laboratoriais, caros e dolorosos que, quando prontos, serão mostrados a um outro colega que não terá a menor noção do que se trata ou porque foram pedidos.
Sem dúvida, ganhamos com programas de vacinação que derrubam índices de mortalidade. Acessos a altas tecnologias salvam e medicações curam, mas entramos em uma rota de risco quando não temos mais tempo para ouvirmos os nossos pacientes.A vida mudou, sim e com eles a medicina também acompanhará essas mudanças, mas, tomara que não percamos a dignidade do ato médico, nem o orgulho de atendermos aos nossos pacientes com atenção e respeito que merecem.
Integral
Coragem para mudar
Símbolo da matemática que, para os gregos, limitaria o infinito ente dois pontos como, por exemplo, o universo compreendido entre A e B. Assim, teríamos a integral compreendida entre os pontos A e B e o universo que o compõe.
Foi o pensador, médico e psicanalista Garma quem propôs, pela primeira vez, o termo integral para a medicina. Preocupado já em sua época, nos idos de 1938, com os rumos que a humanidade tomava ao lotear o corpo, ao dissociá-lo da mente, ao separar o físico do emocional.
E Ciro Martins quem o trouxe para o Rio Grande do Sul, e passou a nos alertar para os riscos que corríamos com essas dissociações que, a todo o momento, corrompiam valores e se distanciavam de uma visão integralista do homem.
Passamos a ver o desenvolvimento humano como etapas sem comunicação, pessoa como partes, e loteamos seus domínios e conhecimentos que passariam não mais se tocarem. Vieram a s especialidades médicas e seus profundos conhecimentos técnicos e científicos tão necessários. Avançamos quilômetros em conhecimentos; perdemos em compreensão do processo como um todo. Reproduzimos a escala evolutiva do homem, na história de nós mesmos, e passamos a viver e sermos, pedaços dados a este ou aquele especialista. A este cabia o profundo saber de cada parte; a ninguém o entendimento do conjunto compreendido entre a e b. Perdemos a nossa identidade de pessoa, nos perdemos entre um universo de exames, cada vez mais complexos e necessários porque deles passamos a depender absurdamente. Às máquinas deixamos o raciocínio lógico e coerência e, por fim, os nossos próprios destinos. Pedaços são tratados, não pessoas. A profunda individualidade deixou de ter importância. O grupal, o social ganhou significado indefinido.
E o homem simples que, no interior, em seu pequeno grupo, tinha nome e sobrenome, ao chegar à cidade, passou a ser ninguém.
Vários pensadores e escritores descreveram o processo de desidentificação que sofremos, entre eles o próprio Ciro Martins, em obras como O gaúcho a pé
. Desmontamos de nossa imponência e identidade e passamos a ser simplesmente, um ninguém na multidão.
A modernidade humana passou a ser desumana, cruel e excludente, raiz da solidão e da violência urbana. Criamos abismos e nele despencamos. Passamos a viver com medo, em condomínios fechados, em sociedades fechadas, e em núcleos fechados cada vez mais fechados.
Afundamos em exclusão com aquilo que temos de melhor e de pior.
A medicina, como de sorte todas as ciências, seguindo atrás ou puxando frente, reflete em sua existência e prática diária, o impessoal. A condição do médico com uma visão integralista perdeu corpo. O desenvolvimento científico e tecnológico passou em sua devastadora existência a tornar impossível a alguém dominar tanto conhecimento e a fragmentação passou a ser inevitável. Fomos nos tornando cada vez mais especialistas disso ou daquilo; ao que denominava Ciro, do loteamento do corpo e da alma. Essas passaram a viver em casas separadas. A tal ponto que a própria medicina criou barreiras limítrofes entre o corpo e mente, entre o que era físico e o emocional, entre o que era ciência pura e o que era arte e emoção. Separamos em dois lotes a psiquiatria da neurologia como se elas tivessem razão de existências separadas, dividindo a própria medicina da psiquiatria em que um médico psiquiatra, por formação, passaria a ter conceitos psicanalíticos, a viver dentro deles distante da medicina geral que era vivida como organicista.
Passamos a ver tudo dissociado. Quem tocaria a alma, não veria o corpo, quem tocaria o corpo, não veria a alma. Depois, passamos a não mais tocarmos o corpo. Deixamos de examinar os nossos pacientes e a semiologia passou a viver em livros velhos e guardados em sua ciência humanística. Os exames, caros, complexos, bem pagos, ganharam notoriedade, até porque valorizados como deuses supremos, isentos de sentimentos, a quem entregamos todos os dias as nossas decisões e vidas.
Deixamos de morrer em casa; morremos em ambientes frios e preparados tecnologicamente a nos manter vivos, o tempo que for necessário para que a nossa saúde financeira se esgote ou o nosso plano de saúde nos abandone. Empresas especializadas passam, então, a cuidar do nosso corpo, ou, o que dele restou. O luto familiar, como todo bem de consumo passou a ser pasteurizado e consumido.
A própria família perdeu força e importância. Cara, pesada e frágil, desestruturou-se em sua forma clássica. O individualismo tomou força e expressão em nossa sociedade de consumo rápido, de descarte imediato. O casamento passou a ser uma instituição falida
ou ter outras formas de existir, fora do padrão único e consagrado. Evolução? Talvez.
Passamos a ser números representativos, unidades sem significado específico, sem expressão de um todo. Isso nos trouxe uma sociedade feroz e individualista, brutal e competitiva, excludente e não inclusiva. Vivemos o culto ao belo rápido e efêmero, aos representativos de posse como expressão de destaque e sucesso. Valores medidos em metros quadrados, cilindradas e saldos bancários em jogos brutais de interesses. Perdemos a solidariedade, a compaixão, e o amor ao próximo. Conflitos religiosos profundos se estabeleceram e miscigenaram valores morais aos financeiros, perigosamente.
O nosso próprio conceito evolutivo sofreu alteração. Passamos a ser uma curva evolutiva ascendente, um momento variável de estabilidade e, de imediato uma curva descendente, involutiva, deprimente caracterizada por perdas, de importância também. Embora discutível e cheia de subterfúgios. Passamos a ver os participantes da curva descendentes como velhos, pertencentes “a melhor idade”, terceira idade ou outros adjetivos desajeitados e preconceituosos. Não mais veríamos uma curva permanente de crescimento que se inicia com o processo de nascimento, simultâneo com o processo de envelhecimento.
A mobilidade dessa curva evolutiva, no entanto, passou a forçar o terceiro espaço com o seu crescimento. Simplesmente as pessoas estavam vivendo mais e mais, e a terceira idade, ou pessoas com mais de 60 anos que ficou convencionado por alguém como barreira para caracterizar pessoas como velhas, passou a crescer e a exigir espaço, direitos e estudos profundos para o seu entendimento. Passamos a discutir a existência da própria curva como real e verdadeira. Assim como as guerras são contadas pelos vencedores, o exame do quem é o velho depende dos olhos de quem a descreve.
Aos olhos de uma sociedade que tem como característica fundamental o descartável, o consumo, o efêmero, o belo, só o que pertence à juventude tem valor. Pouco espaço existe para, além disso, em que pese estarmos tendo mais tempo para viver, progressivamente.
No entanto, se tivermos uma visão integrada da vida, não como curvas ascendentes e descendentes, teremos um processo evolutivo constante. Deveremos nos preocupar com novos conceitos integrativos e não excludentes, mas, inclusivos e permanentes, que visem compreender e atender que a busca de qualidade de vida não seja privilégio de determinados grupos ou faixas de idade e sim, um direito como é o direito fundamental à vida com qualidade a todas as pessoas, independente de idade, sexo ou classe social.
Para que isso aconteça, é importante que se crie um novo conceito de atendimento, que se crie uma nova maneira de pensar. É importante que se crie mudanças, quebre paradigmas e se tenha a coragem de pensar e agir diferente de tudo que, temos feito de esforços nesse sentido. Para que isso se torne uma realidade, é fundamental a criação de um projeto piloto que se lance ao estudo, pesquisa e atendimento a uma faixa de idade que tem merecido crescentes esforços através de vários projetos isolados que ultimam agregação.
A idéia de reunirmos vários projetos em um só lugar, que congreguem pesquisa, atendimento multidisciplinar, cultura, informação e formação profissional, capacitação e modificação de conceitos através de uma convivência com confluência e difusão em um ciclo de vida dinâmico e associativo, com profundas raízes dentro de nossa sociedade, e grande repercussão da nossa maneira de pensar a vida que nós ganhamos para ser vivida integralmente e com qualidade, até o seu fim.